José Newton Coelho Meneses
Universidade Federal de Minas Gerais
Abstract
The article suggests reflecting on writing as a material and expressive act that reflects real experiences and social interactions. It presents a list of expenses from a woman in the Portuguese Captaincy of Minas Gerais in the eighteenth century and invites readers to interpret the document as evidence of daily tastes, consumption, and food practices.
Keywords:Food Studies; Food History; Brazilian Food History; History of Minas Gerais; Food Practices
Introdução
Apreender a materialidade da escrita é para um historiador a possibilidade de leitura mais vertical das fontes de sua investigação. No campo da história da alimentação, a sensibilidade para considerar a escrita um artefato e uma forma de linguagem, se complementam e incorporam sentidos ao texto, ao informar, outrossim, sobre o gesto de quem escreve. Minhas buscas compreensivas sobre os eventos passados e sobre a comida e o gosto alimentar se vergam sobre papéis velhos dos arquivos e percebem que a escrita é, também, elemento material da cultura, artefato da vida, gesto humano.
Faço um radical recorte para que este texto cumpra um papel problematizador sobre a comida e as formas marcantes de exprimir em escrita os gostos alimentares. Sobretudo, esforço-me para que o documento essencial de minha análise, uma lista de despesas com alimentos, esteja transcrito ao final e possibilite sua leitura por interessados em investigá-lo. Penso as materialidades e tento lê-las nos objetos, refletindo na expressão de Daniel Roche sobre eles:
Os objetos, as relações físicas ou humanas que eles criam não podem se reduzir a uma simples materialidade, nem a simples instrumentos de comunicação ou de distinção social. Eles não pertencem apenas ao porão ou ao sótão, ou então simultaneamente aos dois, e devemos recolocá-los em redes de abstração e sensibilidade essenciais à compreensão dos fatos sociais. (Roche 13)
Os artefatos integram-se à vivência humana de forma radical. São elementos materiais da cultura e não apenas a representação da inteligência que os constrói. Incorporam os gestos no uso e se reinscrevem em um cotidiano de que são parte, mas não só: o objeto integra-se ao corpo humano, associa-se à razão, participa da sociabilidade, do desejo dos homens e é símbolo de construções diversas da imaginação. São intrínsecos aos atos vividos.
A cultura material, reforçada pela tradição que nomeia assim a busca interpretativa dos bens materiais das sociedades, objetiva, em verdade, compreender os elementos materiais da cultura ou a dimensão palpável de uma realidade vivida. E é a partir dessas plataformas de observação que os historiadores e outros cientistas sociais têm buscado compreender as transformações sociais pela leitura das coisas da vida. Não há uma cultura material e outra imaterial. Existem culturas, e elas possuem elementos materiais e simbólicos integrados, articulados ao fazer e ao saber da vida social (Meneses 2018).
A escrita é, para além de outras materialidades, sobretudo, artefato e gesto. Gesto é pura materialidade expressa pelo corpo, nossa mais essencial matéria. O gesto manipula e manuscreve constrói tipos móveis e imprime; o gesto grafa. Os dicionários da língua portuguesa o definem como movimento de expressão do corpo, mímica, tudo para exprimir ideias e sentimentos. David Le Breton, em A sociologia do corpo afirma:
Como a língua, o corpo é uma medida do mundo, uma rede jogada sobre a multidão de estímulos que assaltam o indivíduo ao longo de sua vida cotidiana e que só retém em suas malhas os que lhe parecem mais significativos. (…) O corpo não é, portanto, uma matéria passiva, submetida ao controle da vontade, obstáculo à comunicação, mas, por seus mecanismos próprios, é de imediato uma inteligência do mundo. Esse conhecimento sensível inscreve o corpo na continuidade das intenções do indivíduo confrontado a seu ambiente; ele orienta em princípio seus movimentos ou suas ações sem impor a necessidade preliminar de uma longa reflexão (Le Breton 190).
A tradição do pensamento ocidental construiu o dualismo entre materialidade e imaterialidade, entre artefato e inteligência, entre natural e cultural, entre o palpável e o simbólico, opondo material versus ideal, matéria versus mente, sensorial versus abstrato, hierarquizando pensamento-comportamento-matéria, exaltando a superioridade da inteligência e tratando a materialidade como, apenas, uma representação desta. Como Marcelo Rede, procuro problematizar o artefato em uma dimensão ontológica, onde ele é gesto humano, expressão da criatividade e das relações sociais, e em uma perspectiva epistemológica, tratando a materialidade como saber e como fazer e, ainda, como documento da História. No diálogo com as outras ciências sociais a História provocou um “esvaziamento da diacronia”, verticalizando a historicidade do tempo e beneficiando com isso uma visão mais sistêmica e estrutural das experiências em cultura (Rede 138).
Gesto e artefato, inteligência e linguagem
O gesto é artifício, expressão e movimento corporal; une o corpo e a materialidade própria do organismo humano. O artefato, materialidade que estende o gesto ao seu mundo, é instrumento das intenções, opções e sentimentos do homem (Meneses 2017 10). Luce Giard (273), pensando a cozinha e a cozinheira e fundamentada em Marcel Mauss, classifica os gestos como “técnico” ou “de expressão” e os submete às suas finalidades, utilidades e eficácias. A autora nos deixa claro: eles são sequências ordenadas e ações elementares e banais, ordinárias em um cotidiano de fazeres marcado pela utilidade e pela capacidade de organização do ser humano. Gestos têm duração—enquanto durar sua utilidade—e configuram aprendizado, memória e reconstituição; exigem habilidade e suprem necessidades concretas e simbólicas. A escrita é tudo isso e é, portanto, gesto.
No arquivo, onde se salvaguardam acervos e repertórios documentais para a pesquisa histórica, a escrita é memória materializada em tinta, papel, pena, tipo de impressão, mão e o sujeito escritor. Um ser de materialidades, do esforço da ação, esforço físico e mental, materialmente feito de tempo gasto pelo ato de escrever.
Recordam-se neste ponto a “Hétérographies” de Fernando Bouza, e o seu belíssimo texto “Escribir a corazón abierto”, pois sempre se escreve com esforço e com alma. Falando especificamente de emissão e recepção de cartas e de seus múltiplos sentidos e significados, o autor espanhol apresenta-nos saberes, esforços profissionais, um “mercado do escrito”, exposições de almas, fazeres que se concretizam desnudando o coração (Bouza 509).
Nos acervos dos arquivos encontramos a escrita e o escritor. A escrita corporificada em grafias e em suportes, e quem a expressa, em alma e corpo. Por isso, Bouza nos fala de uma fisiologia do ato de escrever que vai do coração à pena, passando pela mão; eu complementaria, pela mão e pelo gesto. Fisiologia visível, arte, fazer, saber, capacidade manual, artesanal, competência gestual. Arte é, essencialmente, materialidade e inteligência, imbricadas e separáveis apenas pelo nosso didatismo simplista e empobrecedor. Na “fisiologia” de Fernando Bouza eu acrescentaria alguns fatores: gestos mais ou menos sofisticados, suor e lágrimas, ansiedades, necessidades, desejos; escolhas caligráficas, opções de cores e de texturas, sensibilidades.
Os manuscritos e impressos, nos arquivos são heranças memorialísticas, memórias sociais evidentes, são nossos objetos informantes da compreensão e da narrativa feita por nós. Marina Furtado Gonçalves afirma, tendo como base a perspectiva analítica dos elementos materiais da cultura, que “o documento em si, [é] composto pelo papel, tintas, marcas e vestígios, um objeto de natureza material constituído historicamente” (Gonçalves 17). A escrita, portanto, materialmente, documenta, é vestígio, rastro da memória; é a própria memória. É repertório de dados para a compreensão crítica de seu tempo. Das temporalidades do seu fazer.
Seus significados, voltando a Fernando Bouza, quer escrito de próprio punho ou com mão alheia, são múltiplos e dependentes de diversos fatores, distintos em várias sociedades e tempos. No seu texto, a materialidade epistolar—lembro que o autor trata da escrita de cartas— diz ao leitor recados e leituras variadas. A carta pode ser escrita de próprio punho, com punho alheio e assinada de próprio punho, impressa e assinada de próprio punho, etc.
A escrita, manuscrita ou impressa, é mensurável em sua materialidade de tempo, de quantidade de tinta, de espaço no suporte, de intensidade de pressão sobre o papel, ou de cor —nas letras capitulares, por exemplo, ou de correções com diversos materiais que apagam e reescrevem por cima. É medida em gestos e em artes/fazeres para executá-los, em posições corporais e dos suportes móveis—como, por exemplo, o ângulo adequado do tampo da escrivaninha para facilitar o gesto, em posturas do corpo para seu conforto ou a passagem da luz, em tamanhos de tipos móveis a serem compostos no caixilho da tipografia, em número de autorias etc. Muito gesto, muita materialidade.
A escrita é presença corporal/material e espiritual de quem escreve: é inteligência e é coração, mão e pena; é “retrato do ânimo”, do humor, do espírito. Como nos “Colóquios de Palatino y Pinciano” de Juan de Arce de Otálora, citado por Bouza, ainda se referindo às fontes epistolares: “Entre amigos é um presente de amor ver letras das suas próprias mãos, que nos consolam e refrescam a memória como se os víssemos presentes” (520). E continua Juan de Arce: “Não se pode chamar ‘carta’ aquelas escritas pelo secretário, porque não se pode significar nelas afetos do coração e nem ter tanta certeza dela” (520). Pois, complementa, “cada mão tem sua atmosfera e forma particular como tem a voz e o rosto de cada um” (520). A escrita como materialidade da alma, tendo o coração, a mão e a pena como instrumentos, como órgãos e como objeto que estende o gesto, satisfaz a vontade e o desejo de se desnudar. Assim, a “atmosfera” da mão, o seu universo de movimentos, a sua mobilidade múltipla e eficiente, constrói a expressão de si em palavras, em tinta sobre papel.
As cartas pessoais, como “fontes epistolares” para a compreensão do passado, têm natureza interessante e nos instigam, ao lê-las, a clara percepção de pessoalidade e de intimismo, características destinadas ao diálogo entre, no mínimo, duas pessoas, que nossa sensibilidade à leitura leva à compreensão de relações pessoais e de escrita de si. A conexão remetente-destinatário, materializada em papel e tinta, foge à efemeridade da oralidade e delineia elaboração mais reflexiva de intenções e de compartilhamentos de quem escreve. Muitas vezes são “códigos de uma escrita íntima decifrados pela amizade” (Santos 39). E, eu complementaria, tornados materialmente legíveis para permanecerem no artefato carta, serem lidos e relidos, continuarem duráveis e permitirem a guarda.
A materialidade da escrita nos documentos é expressa por Márcia Almada como “o conjunto de características formais e físicas que conformam o escrito” (20). São uma série de materiais e de técnicas: o registro textual, o suporte, os materiais de inscrição, pintura e impressão, as formas de conservação como “uma encadernação e as materialidades encravadas pelo tempo, “dobras, alças, adesivos, furos, rasgos, marcas digitais entre outros indícios” (Almada 20). Espelhando-se em Fernando Bouza, cita os sentidos da visão—“visualidade”, olfato—o cheiro—e o tato—textura—e “eventualmente os ouvidos” para a percepção sensorial/material dos escritos. Sou tentado a incluir o paladar, pela sensação gustativa de alguns escritos que podem nos dar “água na boca”. Diria eu, também, que mesmo a desmaterialização que as traças provocam no papel são materializações de buracos, de perdas —textuais, de ausências. Há materialidade neste “vazio parasita” no suporte de papel. Examinar organolepticamente um documento escrito é sentir a dinâmica e a história de sua construção material.
Vários autores pensam a escrita de forma interessante para uma história social. Poderíamos aqui referenciar as práticas das culturas gráficas em Armando Petrucci, as temporalidades dos livros, em imenso número de autores, dentre eles Robert Darnton; as materialidades das edições, como em Roger Chartier, Jean Hébrard e Henri-Jean Martin; as leituras e os leitores em outros sem número de escritores como Alberto Manguel; os impressos em papel como em Eddy Stols; as imagens impressas, como em Miguel Figueira de Faria; o mapeamento da escrita em atlas geográfico, em Franco Moretti; a magia dos impressos em Martyn Lyons e outros tantos historiadores da escrita. Nem todos olharam a escrita pela perspectiva de suas materialidades. Importante é lembrar que textos ficam e se guardam. Outros se perdem em efemeridades propositais ou não, como ressalta Chartier:
No início do século XVII, Cervantes colocou no caminho de Dom Quixote e Sancho o librillo de memoria de Cardênio, que serve de primeiro suporte a poemas e cartas que serão depois recopiados. Tanto um quanto outro, o religioso poeta e o escritor desajeitado, associaram intimamente a escrita à memória, como se toda inscrição pudesse ou devesse ser apagada, como se a escrita se esforçasse sempre para conjurar sua própria fragilidade. (19)
Mas as palavras duráveis, escritas e carregadas junto ao corpo podem, também, ter força de magia e de poder como nos mostra o trabalho de Gislaine Gonçalves Dias Pinto. Estudando o poder das palavras e das imagens em orações carregadas por cristãos novos ela nos informa: “O uso de “escritas mágicas” não seria restrito às camadas populares. Reis, clérigos e pessoas da nobreza utilizavam elementos de ourivesaria; papéis assinados ou escritos por pessoas canonizadas; orações para protegerem-se do mal, de doenças e de ferimentos de armas” (Pinto 217). E complementa: “Para a efetivação do poder protetor das orações não bastava apenas proferir suas palavras, era preciso carregá-las escritas junto ao corpo” (Pinto 217). A escrita como amuleto, artefato de proteção; materialidade produzindo ação mágica.
Nos documentos que os arquivos nos guardam a escrita é sempre peça construída para provar algo. Não serve ao historiador como prova de nada. No entanto, responde a nossos problemas compreensivos, atendendo às nossas narrativas; escritas autorais materializadas em textos que nos expressam corporal e mentalmente. Novas escritas expressando, materialmente, ânimos, humores, necessidades, desejos, mentes e corações.
Necessidade, papel e pena: a lista de alimentos de Anna Perpétua
A necessidade também escreve. Anna Perpétua Marcelina da Fonseca ficou viúva em 1793, no Tejuco—atual Diamantina, Minas Gerais, Brasil—e foi a inventariante dos bens familiares na elaboração do Inventário post mortem do marido. Com cinco filhos menores para criar, teve de se valer dos bens da família para sustentá-los, o que deve ter sido fácil, posto a numerosa posse de riqueza deixada. Para se ter ideia da sua riqueza, basta citar a herança de 136 escravizados alugados à Intendência dos Diamantes e mais cerca de cinquenta escravizados domésticos e envolvidos em atividades agropastoris, comerciais e de mineração de ouro, 14 moradas de casas no Arraial do Tejuco e uma “tropa” de comércio.[1] D. Anna já administrava os bens mesmo quando o marido, Luís José de Figueiredo, médico, era vivo.[2]
No Inventário post mortem foram anexadas três listas justificadoras da necessidade do uso dos recursos na administração dos negócios e sustentação da família e dos escravizados domésticos: “Lista dos lucros que tem tido a herança”, “Lista de despesas com o funeral” e a de “Despesas de Mantimentos de julho de 1793 até outubro de 1796”. Este último rol materializa em texto o que podemos narrar sobre o próprio cotidiano alimentar da abastada família do Tejuco, ao final do século XVIII.
É importante criticar e até duvidar do rigor das anotações da viúva. Podemos questionar a eficiência contábil dessa dona de casa, frente às suas atribuições cotidianas de mãe e de administradora dos negócios, em momento de fragilidade pela viuvez. Ou, de forma contrária, podemos até afirmar a possibilidade dessa capacidade gerenciadora e planejadora da viúva, além da possibilidade de a lista ter sido feita—ou ditada a—por um escrivão. Ainda que possam ser falhas e manipuladas as listagens, elas, para cumprirem bem sua função no processo, não poderiam ser construídas à revelia da realidade local e regional, pois constituiriam, se assim fosse, fraude evidente e não seriam aceitas no processo. Assim, mesmo sob o filtro da crítica documental, elas nos indicam as necessidades, o consumo, a produção, os usos e os costumes dessa família abastada.
A lista de despesas arrola os “mantimentos”, palavra de significado amplo, englobando, além dos alimentos sólidos, os produtos de botica, as bebidas, o azeite para iluminação e as “miudezas”—botões para vestimentas, linhas para costuras, porções de especiarias de tempero e alguns alimentos, como frutas—, adquiridos no comércio fixo ou ambulante. Ela enumera quarenta e dois itens de consumo da família e de seus escravizados domésticos. Os alimentos, alguns deles consumidos regularmente durante o decorrer dos anos e outros sazonalmente, nos permitem interpretar a relação deste consumo com os ditames do clima, os preceitos religiosos, a ocorrência de doenças, a sociabilidade urbana, etc. São evidenciados os produtos “do Reino” e os “da terra”, distinguindo, assim, suas procedências. A lista demonstra, também, a grande produção local/regional e a reduzida importação de bens de outras capitanias ou de Portugal.
A comida é cultura, como propõe Massimo Montanari (2009). Ela é linguagem denotadora de temporalidades no jogo com os espaços. Ela constrói vocábulos, gramáticas, sintaxes e retóricas denotadoras de contextos sociais específicos. Ingredientes e receitas, talheres, conjugação de pratos e de comportamentos à mesa são, assim, evidências materiais de formas de viver interessantes para a compreensão de um todo cultural.
A produção “da roça” da família, atestada pela lista dos “Lucros que tem tido a herança”, concorria para minorar em muito as despesas com a aquisição de produtos no mercado local. Incluíam-se aí o feijão, o arroz, o milho e a sua farinha, carne de boi, leite, hortaliças, algodão—para fiar e tecer, azeite de mamona para iluminação, lenhas, carvões e sebo para sabão. O consumo de arroz, claramente evidenciado, aponta para um hábito alimentar negado pelas narrativas ensaísticas tradicionais sobre a alimentação dos mineiros, no período. O arroz está presente nas duas listas, “de Lucros” e de “Despesas”. Dona Anna Perpétua o produzia em sua roça, o armazenava e o consumia e, quando faltava em suas reservas o encontrava para aquisição no mercado local.
A dieta cotidiana no domicílio de D. Anna era variada e rica como discutido por mim em outros textos (Meneses 2000; Meneses 2020). Consumia-se peixe fresco e peixe seco da pesca regional, além do bacalhau vindo do Reino “para as sextas e sábados”. A carne de porco, seus miúdos e o toucinho foram compras cotidianas, e a mandioca era consumida como farinha e in natura.
O trigo foi escasso e de consumo raro posto ser caro e em sua grande parte importado do Reino. O pão de trigo, assim, não foi um alimento do cotidiano mesmo no ambiente doméstico das famílias de posses. Os portugueses, como era o caso de D. Anna e de seu marido, nas Minas Gerais, adaptaram-se à falta desse cereal. A farinha de milho e o fubá configuraram-se, então como produtos para a confecção de vários petiscos, substitutos do pão. A oferta já regular do sal, ao final do século XVIII é evidenciado pela lista D. Anna, tanto o “do Reino” como o “da terra”.
A alimentação nas Minas Gerais ao final do setecentos se complexificava e sua população já não tinha “sua melhor bodega nos matos e nos rios” (Holanda 181). A “civilização do milho” como a interpretou Holanda, transformou-se e diversificou-se com a sedentarização e com a fixação das populações nos arraiais e nas vilas, mesmo que não tenham se perdido os antigos costumes. Continuaram a ser consumidos os produtos do milho e os da mata. Angu, milho verde em espiga—assado ou cozido, pipoca, curau, pamonha, farinha—“o verdadeiro pão da terra”, canjica grossa, canjiquinha, cuscuz, catimpuera, aluá e jacuba, originários do milho, além do broto de samambaia, do palmito, das caças e dos peixes, do mel de abelhas e outros produtos dos matos continuaram a frequentar a mesa dos habitantes das Minas, associando-se àquela maior oferta de alimentos e, ainda, amalgamando-se mais cotidianamente aos costumes reinóis e aos de indígenas e de africanos.
A lista evidencia fartura. Consumiam-se queijos importados e de fatura local, além das hortaliças, legumes e frutas—bananeiras, frutas de espinho e jabuticabeiras—dos quintais que, cotidianamente, enriqueciam a dieta alimentar.
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A transcrição documental das “Despesas de mantimentos” encerra este texto e objetiva exemplificar, em parte, a materialidade de uma escrita e as possibilidades de leitura de um documento de realidades passadas a partir de uma perspectiva que não o vê apenas como rol de bens de consumo. É documento da necessidade cotidiana. A leitura desta escrita como artefato ultrapassa a percepção de um ato processual cartorário e evidencia-se como denotativo de uma experiência e ação humanas na administração de uma família e seus bens. A agência de uma mulher constrói no gesto da escrita um artefato apresentador da experiência familiar, do gosto e das possibilidades alimentares da elite colonial. Esta lista escrita materializa coração, mente e mão de Anna Perpétua.
Inventário post mortem de Dr. Luiz José de Figueiredo
Inventariante: D. Anna Perpétua Marcelina da Fonseca
(Inv. 14/BAT/1º of./maço 52, 1793)
Despesa de Mantimto Julho de 1793 athe Desbro[3]
De pam no (?) molestia 2
De Carne 2 1/2
P. 2 aroubas de Toucinho 3
P. 4 alq.res de farinha 2
P. 1 barril de azeite 1 ¼
2 alq.res de feijão 1
1 frasco de vinagre 1 ¼
1 bruaca de sal 4 26 – ¼ – 2
4 alq.res de fubá 1
1 arouba de asucar 1 ½
6 alq.res de milho 1 ½
½ duzia de galinhas 23/42 (?)
1 duzia de queijos 1 ¼
8 Lbas de bacalhao pa as sextas e sábados 1 ½
Miudezas # 72
Agosto
1 ½ arroubas de toucinho 2 # – 2
De Pam 1 ¼
Carne 2 ½
1 frasco de azeite doce 2
2 alq.res de feijão 1 13 ¼ – 2
6 ditos de fubá 1 ½
6 ditos de milho 1 ½
8 Lbas de bacalhau 1 ½
Miudezas # 72
7 bro
1 duzia de galinhas 13/44 (?)
de Carne 2
1 ½ arobas de toucinho 2 # – 2
4 alq.res de farinha 2
2 dos de feijão 1 ¼
5 dos de fuba 1 ¼ 15 ¼ – 2
5 dos de milho 1 ¼
1 arouba de carne seca 1 ¼
1 barril de azeite 1 – # – 4
8 Lbas de peixe # 74 – 4
4 fatos pa os escravos # 72 #
miudezas # 72 #
8 bro
Carne 2 ½
1 ½ aroubas de toucinho 2 ½
1 bruaca de sal 3 ¼ – 4
4 alq.res de farinha 2 ½
2 dos de feijão 1 ¼
6 dos de fubá 1 ½ – 4
5 dos de milho 1 ¼ – 5 21 – ¾ – 1
1 arouba de asucar 1 ½
1 duzia de frangos 1 – # – 4
de pam # – 74 – 4
1 arouba de sebo pa sabão 2 – # – #
5 fatos pa os escravos e sabão # – 72 – 4
8 Lbas de peixes e miudezas # ¾ –
9 bro
Carne 2
de toucinho e miúdos de porco 3 ½
1 barril de azeite 1 ¼ – 4
2 alqres de feijão e 4 dos de farinha 3 ¾
6 dos de milho, 4 dos de fubá 3 16 – # – 6
1 do de aros 1 ¼
8 Lbas de peixe # – 74 – 4
miudezas # 72 –
Dezbro
Carne 2 ¼
Toucinho e miúdos de porco 3 ½
1 duzia de frangos 1 – # – 4
½ duzia de galinhas 1 ½
2 alqres de feijão 1 ¼
5 dos de fuba e 6 dos de milho 1 ¾ – 2
5 dos de farinha 3 – # – 4
½ arouba de carne seca # – ¾ – #
2 aroubas de farinha de trigo de São Paulo 6
1 frasco de azeite doce 1 ¾ – 4
1 arouba de asucar 1 ½
1 duzia de queijos 1 ¼
3 fatos pa os negros ¼ – 4
8 Lbas de peixe e miudezas ½ – 4
Despesas dos escravos com bexigas, Valeria crioula, Turibio mulatinho, Quintianila crioulinha
Pam # ¾ #
2 frascos de caxaça e 1 do de vinho 1 1/2 – 4
1 do de vinagre 1 ¼
2 duzias de galinha 1 ¼
Papoulas (?) # – ¾ – #
Janro – 1794
Carne 2
1 ½ arouba de Toucinho 2 ¼
2 alqres de feijão 1 ¼
5 dos de farinha 3 – # – 4
miudos de porco 1 ¼
½ bruaca de sal 2 ¼
½ dúzia de queijos # – 72 – 4
1 barril de azeite 1 ¼
2 fatos pa os escravos # – 74 – #
Miudezas e 8 Lbas de peixe 1
Despesas dos escravos com bexigas, Miguelina mulatinha, Lautério mulatinho, Qintiliano crioulo, Paulina mestiça, e seu filho Policarpio
3 duzias de galinhas 6 ¾
Pam 2
1 barril de caxaça 1
1 frasco de vinho 1 ¾
4 aroubas de carne seca 5
1 frasco de vinagre 1 ¼
1 Lba de Xa # – 72 – #
Doen (?) João José
2 duzias de galinha 4 ½
Pam 1 ½
1 frasco de vinho 1 ¼
2 Lbas de manteiga do Reino 1
Fevro
Carne 2 ½
1 ½ arouba de toucinho 2 ¼
2 alqres de feijão 1 ¼
5 dos de farinha 3 – # – 4
miudos de porco # – ¾ – #
meya bruaca de sal 2 ¼
½ dúzia de queijos # – 74 – # 4
1 barril de azeite 1 ¼
1 ½ arouba de sebo pa sabão 3
6 fatos e cabesas pa os negros e sabão # – 74 – #
8 Lbas de peixe # – 74 – #
miudezas # – 72
Março
1 arouba de peixe 1 ¼
Carne # – 72 – #
2 aroubas de toucinho 3
1 barril de azeite # – ¾ – 6
5 alqres de farinha 3 – # – 4
3 dos de feijão 1 ¾ – 4
1 frasco de azeite doce 2
8 Lbas de bacalhau 1 ½
½ arouba de asucar 1
1 alqueire de aros 1 ½
miudezas e 4 Requeijoens 1 ¼
Abril
1 bruaca de sal 4
1 arouba de peixe 1 ¼
½ da de bacalhao 3
1 da de carne seca pa doentes 1
2 das de toucinho 3
1 da de banha 1 ¾
5 alqueires de farinha 3 – # – 4
1 duzia de queijos 1 ¼
miudezas e 2 Lbas de amêndoas 1 – # – 4
Mayo
Carne 2 ½
1 ½ arouba de toucinho 1 ¾ – 4
miudos de porco 1 ¼
5 alqueires de farinha 3 – # – 4
1 barril de azeite 1
1 arouba de asucar 2
miudezas # – 72 –
Despesas que fis com os doentes de sarampo. Os órfãos todos são – Escravos: Delfina mulata = Turibio mulatinho = Lucinda crioula = Miguel Benguela = Lauterio mulatinho = Paulina mestiça =
6 duzias de galinhas 13 ½
3 das de frangos 3 ¼
1 ½ frasco de vinho 1 ¾
Pam 3 ¼
1 arouba de asucar 2
1 da de carne seca 1 ¼
1 frasco de vinagre 1 ¼
de asafrão 1
de papoulas # – ¼ – #
12 Lbas de marmelada # – ¼ – 4
Agoa Rozada 1
Junho
Carne 2
1 ½ arouba de toucinho 1 ¾
1 da de carne seca pa os doentes 1 ¼
5 alqueires de farinha 2 ½
½ bruaca de sal 2
4 fatos para os escravos # – ½ – #
8 Lbas de peixe # – ¼ – #
miudezas # – ½ – #
Julho
Carne 2
1 ½ arouba de toucinho 1 ½
5 alqueires de farinha 2 ¾
1 barril de azeite 1
1 alqueire de milho # – ¼ – 2
4 fatos pa os escravos # – ½ – #
8 Lbas de peixe # – ¼ – 2
miudezas – 4 Requeijoens # – ¾ – 2
Agosto
Carne 2
1 ½ arouba de toucinho e miúdos 3 ½ – 6
1 bruaca de sal 3 ¾
6 alqueires de fubá e 6 ditos de milho 3 – # – 6
4 fatos pa os escravos – # ½ – #
miudezas e 4 Lbas de peixe – # ¾ – 4
meyo frasco de azeite doce 2 ¼
7 bro
Carne 2
1 ½ arouba de toucinho 1 ¾ – 4
1 barril de azeite 1
5 alqueires de farinha 2 ½
1 duzia de queijos 1 ¼
4 fatos pa os negros – 1 ¼
miudezas – ½ – 4
8 bro
Carne 2
1 ½ arouba de toucinho 1 ½ – 6
1 bruaca de sal 4 – # – 4
3 fatos para os Escravos # – ¼
miudezas # – ½
9 bro
Carne 2 ¼
1 ½ arouba de toucinho 2 ¼
2 alq.res de farinha # ¾
1 arouba de carne seca pa os doentes 1 ¼
1 ½ duzia de frangos 1 ¼ – 5
2 fatos pa os Escravos # – ¼ –
8 Lbas de peixe # – ¼ – 4
miudezas # – ½
Desbro
Carne 2 ¼
Toucinho e miúdos 3 ¾
6 alqueires de fubá 1 ¾
5 dos de milho 1 ½
1 arouba de asucar 1 ½
4 fatos # – ½
6 Lbas de peixe # – ¾
4 Lbas de bacalhao # – ¾
miudezas # – ¾
Janro – 1795
Carne 2
1 ½ arouba de toucinho e miudos 3 ½
1 bruaca de sal 3 ¾
6 alqueires de fuba 1 ½
4 fatos pa os Escravos # – ½ – #
8 Lbas de peixe # – ½ – #
miudezas # – ¼ – #
Fevro
Carne 1 ½
2 aroubas de toucinho 3
6 alq.res de fuba 1 ¾
5 dos de milho 1 ¼
meya arouba de peixe # – ¾
1 duzia de queijos 1 ¼
2 fatos # – ¼
4 Lbas de farinha de trigo # – ¾
miudezas # – ½
Março
1 ½ arouba de toucinho 1 ¾
1 da de banha 2
1 da de peixe 1 ¼
½ da de bacalhao 3
1 frasco de azeite doce 2
1 do de vinagre 1 ¼
6 alq.res de fuba 1 ¾
6 dos de milho 1 ½
miudezas e 4 queijos 1 – # – 4
Abril
meya arouba de peixe # – ½ – #
4 Lbas de bacalhao # – ¼ – #
1 ½ arouba de toucinho 1 ¾
2 Lbas de amendoas # – ½ – #
Carne 1 ½
1 bruaca de sal 4
½ arouba de asucar # – ½
8 Lbas de farinha de trigo # – ¾
1 duzia de frangos 1
6 alq.res de milho e 6 dos de fuba 3 ½
3 fatos pa os Escravos # – ¼
miudezas # – ½
Mayo
de Carne 1
1 ½ arouba de toucinho 1 ½
Miúdos de porco 1
2 aroubas de carne seca pa os meninos 2 ¼
1 duzia de queijos 1 ¼
6 alqueires de milho e 6 dos de fuba 1 ¼
½ frasco de azeite doce # – ½
½ arouba de peixe # – ½
1 duzia de frangos 1
1 da de galinhas 1 ¾
1 barril de azeite 1 ¼
2 fatos para os Escravos # – ¼
miudezas # – ¼
Junho
Carne 1
1 arouba de toucinho 1 ¼
4 alq.res de fuba e 6 dos de milho 1 ¾
6 dos de farinha 1
½ arouba de sabão # – ¼
2 fatos # – ¼
miudezas # – ¼
Julho
Carne 1
1 arouba de toucinho 1 ¼
8 alq.res de fubá e 4 dos de milho 1 ¾
2 fatos pa os Escravos # – ¼
miudezas # – ¼
Agosto
Carne 1 ½
2 Capados 5
4 alq.res de fubá 8 dos de milho 1 ¾
½ bruaca de sal 2 ½
1 arouba de sabão 1
8 Lbas de peixe # – ¼
3 fatos pa os Escravos # – ¼
miudezas # – ¾
7 bro
Carne # ¾
1 arouba da seca 1
4 alqres de fubá 1
6 dos de milho 1 ½
2 dos de feijão 1
2 dos de farinha # – ¾
8 bro
Carne # ½
1 alqre de aros # ¾
6 dos de farinha 1
6 dos de milho # ¾
2 dos de feijão # ¾
½ bruaca de sal 2
1 barril de azeite 1 ¼
½ arouba de asucar # – ¾
1 da de sabão 1
Louça do Caité 1 ½
Panellas e hum pote 1
2 fatos # – ¼
4 Lbas de bacalhao ½
miudezas e ortaliças # ¾
9 bro
Carne 1
1 capado 4
4 alqres de farinha # – ¾
4 dos de milho # – ½
1 barril de azeite 1
miudos de porco # – ½
1 alqre se aros 1
2 dos de feijam # – ¾
8 Lbas de peixe # – ½
2 fatos pa os Escravos # – ¼
miudezas e 4 Requeijoens 1
Despesas que fes o órfão Luiz com a molestia
1 duzia de galinhas 2 ¼
1 da de frangos 1
Carne 1 ½
2 frascos de vinho 2 ½
1 vdo de vinagre 1 ¼
½ do de agoa ardente do Reino # ¾
Pão 1 ¼
Balcimo Catolico # – ¼
½ arouba de asucar 1
4 Lbas de farinha do Reino 1
2 frasquinhos de agoa da Rainha # – ¼
2 Lbas de manteiga do Reino # – ¾
4 das de marmelada # – ¼
Desbro
Carne 2
1 arouba de toucinho 1 ½
1duzia de queijos 1 ¼
5 alqres de farinha 2 ½
4 dos de farinha de milho # ¾
6 dos de milho # ¾
2 dos de feijam 1
1 arouba de asucar 1 ¼
miudos de porco 1 ¼
1 frasco de azeite doce 1 ¾
1 alqre de aros 1
8 Lbas de peixe # – ½
miudezas # – ½
Janro 1796 athe 8bro
1 bruaca de sal 4 ½
Carne 2 ¼
1 barril de azeite 1
1 ½ arouba de toucinho 2 ¼
5 alqres de fubá 1 ¼
5 dos de milho 1 ¼
5 dos de farinha 1 ½
2 fatos 1 cabesa pa os Escravos # – ¼
8 Lbas de sabam # – ¼
miudezas # – ½
Despesas de remedio, galinhas e Pam q. fes a escrava Valeria neste mês # – 2 – ¼ –
Fevro
Carne 2
Peixe pa os dias de jejum # – ½ – #
1 arouba e 8 Lbas de toucinho 1 ½
5 alqres de fuba e 5 dos de milho 2 ½
5 dos de farinha 1 ¼
2 dos de (..?..) 1 ¼
1 arouba de sabam 1
2 fatos 2 cabesas # – ½ – #
½ duzia de queijos # – 12 – #
1 arouba de asucar 1 ¼
miudezas # – ¼ – #
Despesa de remédio galinhas e Pam que fes athe sua morte a Escrava Valeria ….. (?)
Março
Carne # ¾ – #
2 aroubas de toucinho 3
1 da de peixe seco 1 ½
½ frasco de azeite doce 1
4 alqueires de feijam 1 ¼
5 dos de fubá e 6 dos de milho 2 ½
6 dos de farinha de mandioca 2 ¼
1 arouba de sebo pa sabam 2
3 fatos pa o do # – ¼
2 alqres de aros 1 ¼
miudezas 3 – ½
Despesa de remedio galinha e pam q. fes a Escva Lucinda neste mes com sua moléstia …..
Abril
2 ½ arouba de toucinho e banha 3
Carne # – ¾
½ arouba de peixe e # – ½ –
8 Lbas de bacalhao 1
½ frasco de azeite doce # – ¾
1 duzia de queijos 1 ¼
3 alqres de feijão 1
6 dos de fubá e 6 dos de milho 2 ½
5 dos de farinha 1 ¾
miudezas # – ¼
Despesa q. fis de botica Galinhas e Pam na molestia da Escva Lucinda neste mes ….
Despesa q. fes de botica Galinhas e Pam a cabra Maria Damiana e seu filho na molestia que tiveram ……………………………
Mayo
Carnes 2
½ arouba de toucinho 2 ¼
Lombos e miudos de porco 1 ¼
12 Lbas de peixe # – ½
½ bruaca de sal 3 ½
1 arouba de asucar 1 ¼
½ da de banha de porco # – ¾
1 barril de azeite 1
6 alqueires de farinha 2 ¼
2 dos de feijão # – ¾
3 fatos pa os negros – 1 alqre de aros 1 ¾
miudezas # – ¾
Despesa de botica gas e pam q. fes Lucinda athe sua morte ……….
Junho
Carne 2
1 ½ arouba de toucinho 2 ½
1 da de sebo para sabam 2
3 fatos pa o do # – ¼
3 alqres de feijão 1
6 dos de farinha 1 ¾
2 fatos 1 cabesa pa os negros # – ¼
miudezas # – ½
Junho
[Julho – no original repete-se o mês de Junho]
Carne 2
1 arouba e 8 Lbas de toucinho 2 ½
miudos de porco # – ¾ –
4 pratos de sal do Reino 2
2 dos da terra # – ½
5 alqres de farinha 1 ½
3 dos de feijao 1
1 do de aros # – ½
3 fatos pa os negros # – ¼
½ arouba de asucar # – ½
miudezas # – ½
Agosto
Carne 2 ¼
1 ½ arouba de toucinho 2 ¼
4 pratos de sal do Reino e 2 dos da terra 2 ½
1 barril de azeite 1
½ arouba de peixe dias de jejum # – ½
Lombos e (..?..) 1
Fatos pa os negros # – ¼
5 alqres de farinha 1 ½
2 dos de feijão # – ¾
½ duzia de queijos # – ½
½ arouba de asucar # – ¾
miudezas # – ¾
7 bro
Carne 2
1 ½ arouba de toucinho 2 ¼
4 pratos de sal do reino e 2 dos da terra 2 ½
miudos de porco e 8 Lbas de peixe fresco # – ¾
6 alqres de farinha 2 ¼
2 dos de feijao # – ¾
2 dos de aros 1 ¼
2 fatos, 2 cabesas pa os negros e miudezas 1 ¼
8 bro
Carne 2
2 aroubas de toucinho 2 ¾
Lombos e mais miudos de porco # – ¾
½ arouba de banha # – ¾
½ bruaca de sal do Reino 3 ½
½ duzia de queijos # – ½
½ arouba de sabam # – ½ …
3 alqres de feijao 1
miudezas # – ¾
Despesas com Maria Damiana e seu filho neste mes de molestia de Lepra e ambos (..?..)
Remediados ………..
Somão toda a despesa de comestiveo the hoje 30 de 8bro de 1796 na qtia ……..
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OBSERVAÇÕES: distinções ortográficas, abreviaturas e significados.
Agoa – água amêndoas – amêndoas
Alqres – alqueires
Aros – arroz
Arouba – arroba
Asucar – açúcar
Athe, the – até
Bacalhao – bacalhau
Balcimo – bálsamo
Banha – tecido gorduroso de porco
Bruaca – espécie de saco de couro para transportar sal
Cabesas – cabeças
Capado – suíno castrado
Comestiveo – comestível
Ditos, ditas, Dos, Das – artifício para não repetir a mesma palavra acima
Fatos – tecido adiposo que protege os órgãos dos animais
Feijam – feijão
Fes – Fez
Hum – um
Lbas – Libras, medida de peso
Louça do Caité – cerâmica vidrada “da terra”
Miudos – miúdos de porco, órgãos do corpo suíno como coração, rim, fígado etc
Molestia – moléstia, doença
Ortalisas, ortaliças – hortaliças
Pam – pão
Requeijoens – requeijões
Sabam – sabão
Somão – Somam, totalizam
Vdo – vidro
Xa – Chá
Trabalhos citados
Almada, Márcia. “Cultura material da escrita ou o texto como artefato”. Cultura escrita em
Debate. Reflexões sobre o Império português na América–séculos XVI a XIX, editado
por Conceição, Adriana, Angelita de Meirelles, Juliana Gesuelli, Paco Editorial, 2018,
pp. 17-40.
Bouza, Fernando. “Escribir a corazón abierto. Emoción, intención y expresión del ánimo en la
escritura de los siglos XVI y XVII”. Varia História, vol. 35, n. 68, 2019, pp. 507-534.
Chartier, Roger. Inscrever & apagar. Cultura escrita e literatura. Editora UNESP, 2007.
Giard, Luce. “Sequência de gestos”. A invenção do cotidiano, 2. Morar, cozinhar, editado por
Certeau, Michel de, Luce Giard e Pierre Mayol, Editora Vozes, 1996, pp. 268-286.
Gonçalves, Marina Furtado. “Fazer e usar papel: caracterização material da documentação
avulsa da Coleção Casa dos Contos do Arquivo Público Mineiro (1750-1800)”.
Programa de Pós-graduação em História-FAFICH-UFMG, 2020. (Tese de Doutorado)
Holanda, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Companhia das Letras, 1994.
Le Breton, David. A sociologia do corpo. Editora Vozes, 2012.
Meneses, José Newton C. “Introdução – Cultura Material no universo dos Impérios europeus
modernos”. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. vol. 25, n. 1, 2017,
pp. 9-12.
—. “Mesa farta, gostos diversos. Cozinha e práticas alimentares da elite mineira (séculos
XVIII e XIX)”. História & Alimentação. Brasil séculos XVI-XXI, editado por
Algranti, Leila Mezam e Sidiana da C. Ferreira de Macêdo. Editora Paka-Tatu, 2020,
pp. 418-441.
—. O Continente Rústico. Abastecimento alimentar nas Minas Gerais setecentistas. Maria
Fumaça Editora, 2000.
Meneses, José Newton C. e Borrego, Maria Aparecida de Menezes. “Introdução –O
testemunho das coisas úteis e duráveis”. Anais do Museu Paulista: História e Cultura
Material, Vol. 26, 2018.
Montanari, Massimo. “A cozinha, lugar de identidade e das trocas”. O mundo na cozinha.
História, identidade, trocas, editado por Massimo Montanari. SENAC, 2009.
Pinto, Gislaine Gonçalves Dias. “O poder da imagem e da palavra: a posse de imagens por
cristãos-novos portugueses na Idade Moderna”. PPGH-FAFICH-UFMG, 2022.
Rede, Marcelo. “História e cultura material”. Cardoso, Ciro F. & Vainfas, Ronaldo. Novos
domínios da História. Elsevier/Campus, 2012, pp. 133-150.
Roche, Daniel. História das coisas banais. Nascimento do consumo. Sécs. XVII-XIX, Rocco,
2000.
Santos, Alessandra Soares. Francisco Iglésias. A história e o historiador. Alameda, 2017.
Fontes documentais
Inventário post mortem de Luís José de Figueiredo, Biblioteca Antônio Torres, 1793. (Inv.
14/BAT/ 1º Ofício/ maço 52, 1793)
Lista Nominativa de 20/07/1832, Distrito de Paz de Santo Antônio do Tejuco, 1832.
NPHED/CEDEPLAR/UFMG/Poplin–Minas Gerais, 1830, Belo Horizonte.
www.nphed.cedeplar.ufmg.br
Mapa de Moradores do Arraial do Tejuco, conforme cada uma das Ruas, e Becos de que consta
o mesmo Arraial, Tejuco, 1775. Instituto Casa da Glória – IGC-UFMG, Diamantina.
[1] Inv. 14/BAT/1o of./maço 52, 1793. O número de escravizados é extremamente grande quando comparado às características demográficas de Minas Gerais no período setecentista. As propriedades de casa, além daquela de morada da família e de outras alugadas para residências compunha-se, também, de pequenas oficinas alugadas a próprios escravizados com “ofícios”. Eles eram os “escravos de ganho”, ou seja, escravizados trabalhando “como se livres fossem”, pagando “jornal” ao proprietário. “Tropa” é conjunto ambulante de comércio composto de pessoas e de animais transportadores de carga.
[2] Na lista nominativa dos habitantes de Diamantina, de 1831, D. Anna Perpétua é listada como muito idosa e moradora da Rua Macau do meio.
[3] Por opção do autor, a atualização ortográfica não foi realizada, o que dificulta um pouco a compreensão do texto. Justifica essa escolha, o respeito à materialidade do documento. As dificuldades de leitura desta transcrição—chamada de diplomática e em desuso—, são rapidamente sanadas pelo leitor atento. Ao final da lista, apresentamos observação com algumas distinções ortográficas, abreviaturas e significados de palavras pouco usuais na atualidade. A coluna numérica à direita, cremos, indica os valores em “oitavas de ouro”, com a totalização mensal.
Conclusion
L’œuvre philosophique de Wiredu s’impose comme une contribution majeure à la décolonisation conceptuelle et à la redéfinition des universaux philosophiques dans une perspective africaine. En déconstruisant l’imposition eurocentrée des catégories philosophiques, Wiredu ne se contente pas de critiquer l’hégémonie intellectuelle occidentale ; il propose une reconstruction active de la pensée africaine à partir de ses propres cadres linguistiques et conceptuels. Son approche analytique met en évidence l’importance du langage dans la structuration des idées et révèle comment certaines notions, souvent présentées comme universelles, sont en réalité culturellement situées. Loin d’un rejet total de la pensée occidentale, Wiredu plaide pour un dialogue philosophique interculturel fondé sur la reconnaissance mutuelle des traditions intellectuelles. Il refuse toute instrumentalisation des pensées dans une optique de concurrence des soft powers. Ainsi, sa cible demeure celle de l’énonciation de ces canons universels qui sont utilisés comme des outils de propagande et qui reposent souvent sur des ambiguïtés et des contradictions révélant leur origine culturelle,
Son travail ouvre ainsi des perspectives essentielles pour la philosophie contemporaine : comment articuler des pensées enracinées dans des contextes culturels spécifiques tout en évitant le piège du relativisme absolu ? Comment concevoir un universalisme qui ne soit pas un instrument d’hégémonie, mais un espace de négociation conceptuelle entre différentes traditions philosophiques ? Ces interrogations appellent à des recherches futures sur la manière dont d’autres traditions philosophiques non occidentales interrogent et reformulent les notions d’universalité et de particularisme. Elles soulignent également la nécessité d’une prise en compte plus large des langues africaines comme vecteurs de pensée philosophique autonome, au-delà des traductions qui risquent d’altérer la richesse conceptuelle de ces traditions. En ce sens, le projet de Wiredu reste inachevé, non comme un manque, mais comme une invitation à poursuivre le travail de décolonisation conceptuelle et à inscrire durablement les philosophies africaines dans l’espace du débat philosophique mondial.
Bibliographie
Glissant, Édouard. Philosophie de la relation, poésie en étendue. Gallimard, 2009.
Hallen, Barry. Reading Wiredu. Indiana University Press, 2021.
Hountondji, Paulin J. African Philosophy: Myth and Reality. Indiana University Press, 1983.
Kinyongo, Jean. “La philosophie africaine et son histoire.” Les Études philosophiques, no. 4, oct.-déc. 1982, pp. 407-418.
Kodjo-Grandvaux, Séverine. Philosophies africaines. Présence africaine, 2013.
Libera, Alain de. La querelle des universaux. De Platon à la fin du Moyen Âge. Seuil, 2014.
Mudimbe, Valentin-Yves. L’invention de l’Afrique. Éditions Karthala, 1988.
Nkrumah, K. (1964). Consciencism: Philosophy and ideology for de-colonization and development with particular reference to the African revolution. London: Heinemann.
Osha, Sanya. “Kwasi Wiredu Cleared the Way for Modern African Philosophy.” The Conversation, 18 Jan. 2022, www.theconversation.com/kwasi-wiredu-cleared-the-way-for-modern-african-philosophy-174917.
Osha, Sanya. “Kwasi Wiredu: Theorist of Conceptual Decolonization.” Journal of World Philosophies, 2023, pp. 172-182.
Peirce, Charles S., and Nathan Houser, editors. The Essential Peirce: Selected Philosophical Writings. Vol. 2: (1893-1913). Indiana University Press, 2001.
Quine, Willard Van Orman. Word and Object. MIT Press, 1960.
Senghor, Léopold Sédar. “Langue française, langue de culture.” Esprit, nov. 1962, pp. 837-844.
Thiong’o, Ngugi wa. Décoloniser l’esprit. Traduit par Sylvain Prudhomme, éditions La Fabrique, 2010.
Touré, Sekou. Le pouvoir populaire. Tome XVI, Imprimerie Patrice Lumumba, 1972.
Wamba-dia-Wamba, Ernest. “La philosophie en Afrique ou les défis de l’africain philosophe.” Revue Canadienne des Études Africaines, vol. 13, nos. 1-2, 1979, pp. 223-244, https://doi.org/10.2307/484645.
Wiredu, Kwasi. “Logic and Ontology.” Second Order: An African Journal of Philosophy, vol. 4, nos. 1-2, 2020, pp. 1-16.
Wiredu, Kwasi. Philosophy and an African Culture. Cambridge University Press, 1980.
Wiredu, Kwasi. “Canons of Conceptualization.” The Monist, vol. 76, no. 4, 1993, pp. 450-476.
Wiredu, Kwasi. Cultural Universals and Particulars: An African Perspective. Indiana University Press, 1996.
Wiredu, Kwasi, and Bruno Ambroise. “L’empiricalisme : Une Philosophie Africaine Contemporaine.” Rue Descartes, nos. 45-46, 2004, pp. 166-178.
Wiredu, Kwasi. “An Oral Philosophy of Personhood: Comments on Philosophy and Orality.” Research in African Literatures, vol. 40, no. 1, 2009, pp. 8-18.
